Graciliano Tolentino
Entre a poesia e a realidade: uma leitura do Brasil
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O POWERPOINT SORRI, O CARRINHO NÃO

 

                 O governo do PT gosta de números bonitos à distância. Crescimento aqui, atividade aquecida ali, confiança acolá. No slide, a economia parece quase civilizada. No supermercado, continua hostil.

 

Essa é a miséria elegante do debate econômico brasileiro: Brasília fala em dinâmica macroeconômica, e a dona de casa fala em preço. O ministro fala em tração da atividade, e o trabalhador fala em prestação. O governo fala em resiliência, e a vida real fala em aperto. Agora o próprio Boletim Focus elevou a projeção de inflação para 4,17% em 2026 e também subiu a expectativa para a Selic de fim de ano para 12,5%. Ou seja: o mercado está dizendo, com a sobriedade fria dos números, que o custo de vida segue pressionado e o dinheiro continuará caro.

 

Não é preciso ser economista para entender o insulto dessa combinação. Inflação mais alta significa corrosão persistente da renda. Juros mais altos significam crédito mais duro, investimento mais caro, financiamento mais cruel e consumo mais travado. Quando as duas coisas caminham juntas, o cidadão comum não sente “complexidade de cenário”. Sente sufoco. Sente que o salário chega cansado ao fim do mês. Sente que o cartão virou armadilha com logomarca. Sente que a economia oficial pode até estar se explicando bem, mas não está melhorando na mesma velocidade em que se justifica.

 

E aqui aparece o truque predileto do poder: transformar distância entre discurso e vida concreta em questão de percepção. Como se o problema estivesse no humor do consumidor, e não no preço do básico. Como se o incômodo popular fosse excesso de pessimismo, não excesso de pressão. Como se bastasse repetir que a atividade está aquecida para convencer o carrinho de compras a ficar mais leve. Mas carrinho de compras não lê release. Geladeira não acompanha coletiva. Boleto não se emociona com narrativa de retomada.

 

O Banco Central mantém meta contínua de inflação em 3%, com intervalo de tolerância até 4,5%. A projeção de 4,17% segue abaixo do teto, é verdade, mas continua acima da meta e revela um país ainda longe de respirar com normalidade de preços.

 

Isso é o que mais corrói a confiança. Não é apenas a inflação subir um pouco ou os juros demorarem mais a cair. É o país viver permanentemente nesse quase. Quase dentro da meta. Quase começando a aliviar. Quase entrando numa fase mais confortável. Quase entregando o que foi prometido. O brasileiro está exausto do quase. O brasileiro paga a conta inteira de um país que insiste em oferecer melhora parcelada, condicional e reversível.

 

E o mais venenoso de tudo é que, quando o governo fala em atividade aquecida, ele muitas vezes parece desconsiderar a diferença entre circulação de número e sensação de prosperidade. A economia pode até estar se movendo. Mas movimento não é sinônimo de alívio. Pode haver PIB respirando e famílias prendendo o fôlego ao mesmo tempo. Pode haver slide otimista e mesa doméstica tensa. Pode haver estatística viva e consumo emocionalmente morto.

 

Essa talvez seja a imagem mais fiel do Brasil econômico: os indicadores sorriem no telão, enquanto a população segue negociando com a realidade no caixa. O problema não é só técnico. É moral. Porque existe algo de obsceno em insistir numa narrativa de vigor quando o cotidiano ainda exige cálculo humilhante para comprar o básico, financiar o necessário ou simplesmente atravessar o mês sem se afogar no custo do dinheiro.

 

Inflação de 4,17% e Selic de 12,5% não são apenas números. São o idioma frio de uma economia que continua cobrando demais de quem já está cansado.

 

O PIB pode até sorrir no PowerPoint. O carrinho de compra não ri.

Graciliano Tolentino
Enviado por Graciliano Tolentino em 25/03/2026
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