Graciliano Tolentino
Entre a poesia e a realidade: uma leitura do Brasil
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MERCADO ABERTO... DISCURSO? FECHADO!

 

                 O Brasil produtivo quer vender. Brasília quer discursar.

 

Eis uma das tragédias elegantes da nossa vida pública: o país que planta, fabrica, transporta, exporta e corre atrás de mercado costuma andar mais rápido do que a mentalidade de quem o governa. Agora o acordo provisório entre Mercosul e União Europeia vai entrar em vigor em 1º de maio de 2026. Depois de décadas de negociação, o Congresso promulgou o texto, o governo confirmou a data, e finalmente uma porta comercial relevante começa a sair do PowerPoint diplomático para entrar no mundo real.

 

No papel, isso deveria ser motivo de lucidez nacional. Abrir mercado é ampliar horizonte. É dar mais espaço para agro, indústria, serviços, investimento e escala. É permitir que quem produz no Brasil converse com o mundo sem carregar nas costas todo o entulho protecionista e toda a pose autárquica que parte da elite política ainda trata como virtude moral. Mas aqui nada consegue ser simples. Nem quando a oportunidade aparece, ela vem desacompanhada do velho cacoete ideológico de Brasília: o medo permanente de parecer pró-mercado demais, moderno demais, pragmático demais.

 

O acordo prevê eliminação ou redução gradual de tarifas em grande parte do comércio bilateral. A União Europeia retirará tarifas sobre 95% dos bens do Mercosul em até 12 anos; o Mercosul fará o mesmo com 91% dos bens europeus em até 15 anos. Em qualquer país minimamente ambicioso, isso seria lido antes de tudo como chance de expansão, produtividade e inserção estratégica. Aqui, porém, sempre há alguém pronto para puxar o debate de volta ao porão das cautelas morais, como se vender mais ao mundo fosse quase um pecado de lesa-soberania.

 

É impressionante como o Brasil oficial ainda consegue tratar abertura comercial como se estivesse lidando com material radioativo. O setor produtivo olha para fora e vê demanda, escala, previsibilidade, diversificação. Brasília olha para o mesmo movimento e sente necessidade de vestir tudo com uma camada grossa de discurso. Discurso sobre equilíbrio geopolítico. Discurso sobre proteção setorial. Discurso sobre sensibilidade regulatória. Discurso sobre narrativa diplomática. Sempre discurso. Como se a máquina pública tivesse horror de admitir, em voz clara, que país sério precisa comerciar melhor, competir mais e depender menos da fantasia de grandeza fechada.

 

E o mais curioso é que esse tipo de avanço só expõe ainda mais a miséria conceitual de boa parte da nossa conversa econômica. Porque quem produz já entendeu faz tempo que soberania não é fechar janela; é ter força para atravessar fronteira sem se ajoelhar. Não é levantar barreira por reflexo ideológico; é entrar no jogo global com inteligência, defesa dos interesses nacionais e confiança na própria capacidade competitiva. O acordo não é rendição. É instrumento. Não é capitulação. É inserção. Não é submissão ao estrangeiro. É tentativa de parar de sabotar o próprio país com atraso mental fantasiado de prudência.

 

Mas o Brasil político adora confundir prudência com paralisia. Adora tratar oportunidade como dilema filosófico. Adora fingir que o grande risco está sempre em abrir demais, quando muitas vezes o desastre concreto está justamente em continuar travado, caro, burocrático e lento. O agro sabe disso. A indústria que ainda luta para sobreviver com custo Brasil nas costas sabe disso. Quem exporta sabe disso. Quem investe sabe disso. Quem parece não saber é justamente o núcleo que fala em desenvolvimento como se fosse possível desenvolvê-lo em ambiente hostil à integração competitiva.

 

A promulgação pelo Congresso em 17 de março e a entrada em vigor provisória em 1º de maio revelam um contraste quase humilhante: quando a institucionalidade funciona para abrir caminho econômico, aparece uma fresta de país adulto. Quando a linguagem política reassume o controle, a fresta logo corre o risco de ser soterrada por ressalva, hesitação, condicionante e verniz ideológico.

 

E aqui mora o ponto mais venenoso: o Brasil não sofre apenas por falta de acordo. Sofre por excesso de mentalidade estreita diante do acordo. Sofre porque parte do poder ainda age como se o contato mais intenso com o comércio global fosse concessão, e não necessidade. Como se proteger o interesse nacional significasse manter o país encalhado em si mesmo. Como se abrir mercado fosse traição, e não ferramenta.

 

A verdade é mais dura e muito menos romântica. Quem não vende, encolhe. Quem não integra, perde escala. Quem não compete, apodrece atrás da própria retórica. O Brasil produtivo já entendeu isso. Brasília, como sempre, ainda tenta chegar lá falando demais.

 

O país quer abrir mercado. A capital quer abrir discurso. E, no Brasil, quase sempre é o discurso que atrasa o embarque.

Graciliano Tolentino
Enviado por Graciliano Tolentino em 25/03/2026
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