O governo bagunça o tabuleiro, assiste ao estrago, e depois aparece com um remendo na mão exigindo aplauso pela própria pressa.
Agora a novidade é o diesel: depois do impasse sobre o ICMS, a União propôs um subsídio de R$ 1,20 por litro ao diesel importado**, dividido com os estados, em caráter emergencial. Traduzindo do burocratês para o português do asfalto: o poder público ajudou a empurrar o problema para a beira do abismo e, quando o barulho do motor falhando começou a subir demais, correu para improvisar uma gambiarra com dinheiro público.
É assim que o Brasil oficial costuma operar quando o custo da realidade finalmente encosta no vidro de Brasília. Primeiro vem a confusão tributária, regulatória e política. Depois vem o susto do setor produtivo. Depois vem a ameaça de desabastecimento, paralisação ou repasse em cascata. Só então aparece o gesto emergencial, vendido como sensatez administrativa, quando na verdade é apenas o atestado de que ninguém conseguiu organizar direito a lógica anterior.
A proposta, segundo a Agência Brasil, vale até 31 de maio. Temporária, emergencial, corretiva, excepcional — o Estado adora essas palavras. São o perfume preferido do improviso. O governo trata incêndio como se fosse política pública. Apaga o foco mais urgente, segura a fumaça por alguns dias e chama isso de solução. Enquanto isso, caminhoneiro, agro, interior e toda a economia que depende de diesel seguem reféns da velha experiência brasileira: o custo real nunca desaparece, só muda de nome.
O mais insultante é que se tenta vender o subsídio como demonstração de cuidado, quando ele também é confissão de falha. Subsídio emergencial não é medalha. É curativo. E curativo em política de combustível costuma aparecer quando o paciente já está perdendo sangue faz tempo. Se fosse arranjo sólido, não precisaria vir com prazo curto, correção de estimativa fiscal e ares de contenção de danos. A própria Fazenda corrigiu nesta terça a conta do impacto: não seriam R$ 6 bilhões, como informado antes, mas R$ 3 bilhões no total. Nem a conta do remendo consegue nascer sem tropeço.
É aí que mora o veneno brasileiro. O país convive com uma estrutura tributária e logística pesada, o diesel sobe, a cadeia produtiva range, o frete ameaça contaminar tudo, e a reação do poder não é simplificar o ambiente, nem reduzir a gordura estrutural do custo Brasil. É improvisar compensação temporária. Como sempre, mexe-se no sintoma para não tocar demais na doença. Porque enfrentar a doença exigiria coragem para rever mecanismo, pacto, voracidade arrecadatória e esse fetiche crônico de resolver urgência com paliativo.
O caminhoneiro sabe disso sem precisar de editorial. O produtor rural sabe disso olhando a planilha. O interior sabe disso quando percebe que cada espasmo no diesel respinga em transporte, alimento, insumo e preço final. A classe média produtiva também sabe: toda vez que Brasília mexe mal na engrenagem, alguém na ponta vai pagar o custo da genialidade improvisada. E quase nunca é quem assinou a nota técnica.
Há também uma perversidade política nesse teatro. Quando convém arrecadar, o Estado é duro. Quando o estrago aparece, o Estado posa de bombeiro. Primeiro ajuda a construir o labirinto, depois oferece uma lanterna e exige gratidão. Primeiro pesa a estrutura, depois anuncia excepcionalmente que vai aliviar um pedaço. E o país, exausto, quase é treinado a agradecer pelo alívio parcial do sufoco que a própria máquina ajudou a produzir.
Repare no desenho moral da cena: o problema não é tratado como expressão de um sistema ruim; é tratado como acidente conjuntural. Nunca é o modelo que falha. Nunca é o ambiente que ficou hostil demais. Nunca é o vício do improviso que voltou a mandar. É sempre uma intercorrência, um choque, uma necessidade emergencial, um ajuste transitório. O Brasil oficial vive de chamar reincidência de excepcionalidade.
No fim, o subsídio de R$ 1,20 por litro não soa como sinal de comando firme. Soa como aquilo que ele realmente é: um remendo caro para uma engrenagem desorganizada. E remendo, por melhor que pareça no anúncio, não devolve confiança. Só adia a próxima pancada.
O governo remenda hoje o preço que ajudou a bagunçar ontem. E o país, mais uma vez, é convidado a chamar improviso de gestão.