O Estado arrecada como nunca. O cidadão aperta como sempre.
Saiu mais um número daqueles que Brasília adora exibir com ar de eficiência: R$ 222,1 bilhões arrecadados em fevereiro. Recorde para o mês. Alta real de 5,68% sobre o ano passado. O governo olha para essa montanha de dinheiro entrando e sorri com a autoconfiança de quem acha que um cofre cheio basta para provar competência. Não basta. Porque o que sobe no caixa público não desce em alívio na vida real.
Esse talvez seja o retrato mais indecente do Brasil tributário: o Estado respira fundo, o contribuinte respira curto. O Tesouro enche, a família aperta. A máquina arrecada com força de aspirador industrial, mas quem paga a conta continua andando pelo mês como quem tenta sobreviver até o próximo boleto. Há recorde no cofre e sufoco no carrinho de compras. Há abundância para o Leviatã e cansaço para quem produz.
O poder público gosta desse jogo de cena. Gosta de anunciar recorde porque recorde tem som de sucesso. Recorde parece eficiência, parece vigor, parece ordem. Só que arrecadação alta, por si só, não é medalha moral. Pode ser apenas a prova de que o Estado ficou ainda melhor em retirar oxigênio da sociedade. Pode ser sintoma de economia aquecida, sim. Mas também pode ser sintoma de uma estrutura que nunca perde a fome, mesmo quando a mesa dos outros já está minguada. A própria Receita atribuiu o resultado a fatores como atividade econômica e arrecadação maior de tributos ligados ao consumo e à renda.
E aqui está a obscenidade central: quando o Estado arrecada mais, ele não costuma ficar mais modesto. Fica mais confiante. Mais largo. Mais convencido de que sua expansão é natural. O raciocínio é perverso: se entrou mais dinheiro, então há espaço para mais gasto, mais compromisso, mais programa, mais estrutura, mais presença, mais máquina. Nunca é hora de emagrecer. Nunca é hora de pedir desculpas pelo peso. Nunca é hora de reconhecer que arrecadar muito e devolver pouco em sensação concreta de melhora talvez seja sinal de distorção, não de triunfo.
O cidadão comum entende isso sem planilha. Ele talvez não saiba repetir o nome de cada tributo, não acompanhe relatório bimestral, não cite série histórica, mas sente no corpo a verdade brutal: o Estado leva muito e alivia pouco. O salário some rápido. O mercado continua hostil. A conta básica continua arrogante. O financiamento continua duro. O imposto está em tudo, mas o respiro em quase nada.
No acumulado de janeiro e fevereiro, a arrecadação já beirou R$ 548 bilhões. É dinheiro demais para um país onde tanta gente continua vivendo com a sensação permanente de aperto.
E então aparece a retórica oficial tentando vender robustez. Robustez de quê? De um Estado que consegue aumentar entrada de recursos sem produzir, na mesma proporção, a sensação de desafogo? De uma máquina que coleta cifras gigantescas enquanto o sujeito normal continua fazendo conta no corredor do supermercado? Há algo de quase ofensivo em celebrar recorde de arrecadação num país em que a prosperidade do cofre público raramente se parece com prosperidade doméstica.
O Estado brasileiro tem esse talento sombrio: ele consegue transformar vitalidade arrecadatória em experiência popular de exaustão. É um tipo especial de parasitismo elegante, com linguagem técnica, coletiva de imprensa e ar de responsabilidade. Tudo muito limpo na apresentação. Tudo muito sujo na sensação concreta de quem sustenta o sistema.
No fundo, o contraste é simples e cruel. O governo vê recorde. O contribuinte vê aperto. O Estado enche o peito. O cidadão perde o fôlego.
E quando o Estado arrecada mais, mas o cidadão não respira melhor, o nome disso não é prosperidade. É compressão.