Graciliano Tolentino
Entre a poesia e a realidade: uma leitura do Brasil
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O POVO QUE O DISCURSO NÃO CONHECE

                  Há uma curiosa devoção retórica ao povo em boa parte da vida pública brasileira. Fala-se muito em povo. Invoca-se o povo. Defende-se o povo. Disputa-se o povo. Usa-se o povo como selo de legitimidade, como argumento moral, como abrigo simbólico para quase qualquer projeto de poder. E, no entanto, justamente quando o povo aparece de verdade — com sua linguagem, sua fé, sua família, seus limites, seu patriotismo, sua dureza aprendida na vida concreta — uma parte considerável dos que mais o mencionam demonstra um mal-estar difícil de esconder.

 

Porque o povo do discurso e o povo real raramente coincidem.

 

O povo do discurso é dócil. É abstrato. É maleável. Cabe inteiro nas palavras de quem o administra à distância. Pode ser representado sem atrito, descrito sem surpresa, invocado sem risco. É uma figura conveniente: pobre o suficiente para ser útil, simbólica o suficiente para não criar embaraço, silenciosa o suficiente para não desmentir quem fala em seu nome.

 

Já o povo real é outra coisa.

 

O povo real chega cansado do trabalho. Paga conta. Cria filho. Reza. Enterra os seus. Desconfia de certas promessas bonitas. Não tem tempo para a vaidade dos salões. Nem sempre fala a linguagem autorizada. Nem sempre usa o vocabulário que rende prestígio. Às vezes ama o país sem ironia. Às vezes acredita em Deus sem pedir desculpas. Às vezes acha que família, ordem, dever, limite e responsabilidade ainda significam alguma coisa. Às vezes sente, antes dos intérpretes oficiais, que há algo errado no clima moral do tempo. E é justamente aí que começa o constrangimento.

 

Porque o povo real não aceita tão facilmente ser reduzido a figurante do próprio drama.

 

Ele desorganiza a fantasia dos que se acostumaram a falar por ele. Desorganiza porque existe com densidade própria. Porque não se deixa resumir em categoria elegante. Porque não cabe bem no molde pedagógico de quem gostaria de refiná-lo até que deixasse de lembrar o Brasil profundo. O trabalhador concreto, a mãe exausta, o pequeno comerciante, o pai de família, a avó religiosa, o homem simples com senso moral firme — todos esses produzem desconforto em certos ambientes não porque sejam irrelevantes, mas porque continuam sendo demasiado reais.

 

E a realidade sempre incomoda quem prefere a abstração sob controle.

 

Talvez por isso exista tanta facilidade em amar o povo em tese e tanta impaciência diante do povo em carne e osso. Ama-se o trabalhador como ícone, mas não o trabalhador quando ele pensa por conta própria. Celebra-se a diversidade, mas não a diversidade de convicções do homem comum. Fala-se em inclusão, mas com frequência se mantém um campo simbólico em que o conservador, o religioso, o patriota e o brasileiro comum entram já marcados por um déficit de respeitabilidade. O povo pode ser usado como ornamento moral; o que não pode é aparecer de pé, com voz própria, sem se ajoelhar ao repertório dos superiores.

 

No fundo, o problema não está no povo. Está no fato de que ele não confirma integralmente a imagem que certa elite construiu para administrá-lo.

 

O povo do discurso serve para justificar projetos. O povo real exige ser levado a sério. O povo do discurso confirma a sensibilidade de quem fala. O povo real, muitas vezes, desmente essa sensibilidade pela simples forma como continua organizando a vida. O povo do discurso pode ser puro sofrimento interpretado por especialistas. O povo real mistura sofrimento, fé, dureza, apego a vínculos, desejo de ordem, memória e um certo instinto de sobrevivência moral que não passa por homologação universitária, midiática ou burocrática.

 

É por isso que o desprezo costuma aparecer disfarçado de pedagogia.

 

Não se diz abertamente: “não gostamos de vocês.” Isso seria grosseiro demais. Diz-se algo mais elegante: que é preciso educar, conscientizar, amadurecer, sofisticar, corrigir percepções, atualizar sensibilidades. Tudo soa civilizado. Tudo parece razoável. Mas, no fundo, a operação é simples: manter o povo real sob tradução permanente, como se sua experiência nunca bastasse, como se sua leitura da própria vida precisasse sempre ser validada por alguma instância superior de interpretação.

 

O problema é que o povo aprende.

 

Aprende devagar, por vezes com atraso, por vezes com raiva acumulada, por vezes sem dominar ainda toda a linguagem necessária para responder. Mas aprende. Aprende a notar que era amado apenas enquanto permanecia abstrato. Aprende a perceber que a compaixão de certos ambientes não incluía respeito real por suas crenças e valores. Aprende que muita fala em nome do povo vinha acompanhada de um profundo desconforto diante de qualquer povo que ainda quisesse continuar sendo ele mesmo.

 

E quando o povo percebe isso, alguma coisa muda de lugar.

 

Muda porque a autoridade moral dos intérpretes começa a rachar. Muda porque o homem comum deixa de aceitar tão facilmente a caricatura que fizeram dele. Muda porque já não basta invocar “o povo” como palavra nobre enquanto se ridiculariza o povo real no cotidiano da linguagem, da cultura e dos ambientes de prestígio. Muda, sobretudo, porque a distância entre o discurso e a vida concreta deixa de ser invisível.

 

O povo que o discurso não conhece é o povo que ainda sustenta o país sem caber nas explicações que o usam.

 

É o povo que continua trabalhando sem virar manchete, crendo sem virar teoria, amando sem pedir licença, sofrendo sem palco e sobrevivendo com uma dignidade que muitos intérpretes perderam há muito tempo. É o povo que não combina com as fantasias dos que o administram em abstrato. E talvez seja justamente por isso que continue sendo a parte mais verdadeira do Brasil.

 

Porque o povo pode até ser invocado por muita gente.

 

Mas continua pertencendo, antes de tudo, a si mesmo.

Graciliano Tolentino
Enviado por Graciliano Tolentino em 25/03/2026
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