Graciliano Tolentino
Entre a poesia e a realidade: uma leitura do Brasil
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O DIREITO DE AMAR O PRÓPRIO PAÍS

 

                 Há algo de profundamente doente em uma cultura que obriga o cidadão a se justificar por amar a própria terra. Não falo do patriotismo vazio, performático, daquele que usa a pátria como acessório de ocasião e a abandona na primeira conveniência. Falo de algo mais elementar e mais humano: o direito de olhar para o próprio país sem vergonha ensinada, sem ironia obrigatória, sem precisar diminuir o próprio afeto para não parecer ingênuo diante dos ambientes que transformaram o desdém em sinal de inteligência.

 

Amar o próprio país deveria ser uma das coisas mais naturais do mundo.

 

Porque país não é apenas aparato estatal, nem governo passageiro, nem retórica oficial, nem peça de propaganda. País é língua, memória, paisagem, infância, sotaque, comida, canto, cemitério, promessa, perda, continuidade, povo. País é o nome ampliado de uma pertença. É o lugar onde a história coletiva e a vida íntima se tocam. É o chão moral em que uma pessoa aprende a dizer “nós” sem estar falando apenas de si.

 

Mas, durante muito tempo, ensinou-se a muitos brasileiros que esse afeto precisava vir moderado, quase desculpado. Como se amar o próprio país exigisse alguma purificação prévia para não cair em suspeita. Como se o vínculo com a nação fosse sempre uma emoção perigosa demais nas mãos do homem comum. Como se a única forma legítima de amar o Brasil fosse amá-lo já corrigido, filtrado, reescrito segundo a sensibilidade dos que nunca suportaram o Brasil real sem algum grau de constrangimento.

 

Essa pedagogia é profundamente destrutiva.

 

Porque um povo que perde o direito de amar a própria terra sem humilhação começa, aos poucos, a perder também a força de defendê-la, interpretá-la e continuá-la. Quando a identidade nacional passa a soar como exagero, quando o pertencimento vira motivo de piada, quando os símbolos coletivos são tratados sempre com um olhar de reserva moral, instala-se uma forma sofisticada de desarmamento interior. O sujeito até continua vivendo no país, mas já não o habita com inteireza. Já não o assume com coluna. Já não o defende com calor. Aprende a descrevê-lo mais do que a pertencê-lo.

 

E pertencimento enfraquecido sempre interessa a algum tipo de poder.

 

Interessa aos que preferem um povo sem centro simbólico, mais fácil de administrar do que de respeitar. Interessa aos que gostam de falar em nome do Brasil, mas se irritam quando o Brasil concreto aparece com suas crenças, seus limites, suas lealdades e sua memória. Interessa aos que toleram a ideia abstrata de nação, desde que a nação não gere afeto forte demais, orgulho teimoso demais, resistência moral demais. Porque povo que ama o que é torna-se menos maleável do que povo treinado para desconfiar de si.

 

O brasileiro comum percebe isso mais do que muitos imaginam. Percebe quando a bandeira precisa ser tratada com ironia para ser aceita em certos círculos. Percebe quando o patriotismo do povo é retratado como simplório, enquanto cosmopolitismos vazios circulam como prova de sofisticação. Percebe quando o amor à pátria é tolerado apenas se vier esvaziado de povo, de fé, de história, de vínculo, de vida concreta. Percebe, sobretudo, quando lhe ensinam que o Brasil merece comentário permanente, mas não reverência; análise fria, mas não calor; crítica sem fim, mas não pertencimento assumido.

 

Só que amar o próprio país não é fechar os olhos para seus defeitos. É justamente o contrário.

 

Só ama de verdade quem se recusa a reduzir a pátria aos seus fracassos momentâneos. Só ama de verdade quem distingue entre o país profundo e as deformações que o atingem. Só ama de verdade quem enxerga miséria sem transformar miséria em identidade definitiva, quem critica o que precisa ser corrigido sem transformar o desprezo em método, quem sabe que a nação é maior do que os ciclos de poder, maior do que a propaganda, maior do que a caricatura montada contra ela pelos que perderam o vínculo e passaram a chamar isso de lucidez.

 

No fundo, negar ao povo o direito de amar a própria terra é uma forma de negar ao povo o direito de existir simbolicamente com dignidade.

 

Porque a pátria não é um capricho emocional infantil. É uma estrutura de continuidade. É o lugar onde a memória coletiva ganha corpo. É o campo em que os mortos, os vivos e os que ainda virão se ligam por algo que nenhum contrato puramente utilitário consegue produzir. E quando esse elo se enfraquece, o país não vira automaticamente mais livre, mais maduro ou mais justo. Muitas vezes vira apenas mais disponível ao cinismo, mais vulnerável à fragmentação e mais incapaz de reconhecer o que ainda merece ser preservado.

 

O homem comum, com todos os seus defeitos e limites, entende isso de um modo que muita sofisticação desaprendeu a entender. Entende quando canta o hino sem achar que está encenando. Entende quando olha a bandeira sem pedir desculpas por isso. Entende quando ama a terra onde nasceu não porque ela seja perfeita, mas porque é sua, porque a recebeu e porque não quer entregá-la moralmente degradada aos que virão depois. Há uma grandeza humana nisso. Uma grandeza simples, concreta, sem muito verniz, mas ainda profundamente civilizacional.

 

O direito de amar o próprio país é, no fundo, o direito de não deixar que a vergonha ensinada vença.

 

E toda vez que um povo reaprende a olhar para sua própria terra sem deboche, sem medo e sem a necessidade de se curvar à superioridade dos que já não pertencem a nada, alguma coisa essencial volta a ficar de pé.

 

Porque nenhuma nação permanece viva por muito tempo se seus filhos forem treinados a amá-la apenas em silêncio.

Graciliano Tolentino
Enviado por Graciliano Tolentino em 25/03/2026
Alterado em 25/03/2026
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