Graciliano Tolentino
Entre a poesia e a realidade: uma leitura do Brasil
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O TEATRO DOS SUPERIORES

 

                 Existe um tipo de superioridade que depende inteiramente de plateia. Sozinha, talvez nem se sustente. Mas, diante do público certo, aprende a virar performance. Mede o tom, organiza a expressão, escolhe o vocabulário mais bem recebido, acerta o ângulo da indignação e então sobe ao palco para representar sua parte favorita: a do sujeito moralmente acima da vida comum.

 

É um teatro. E, como todo teatro, precisa de cenário, figurino e aplauso.

 

O cenário é o ambiente de prestígio: os espaços em que certas sensibilidades já entram ungidas, certas palavras já nascem limpas e certas convicções já circulam com a vantagem simbólica de parecerem naturalmente mais humanas, mais lúcidas, mais civilizadas. O figurino é a linguagem correta, a delicadeza treinada, a ironia polida, a compaixão em dose calculada, a severidade seletiva. E o aplauso vem na forma de reconhecimento mútuo: um público que não quer propriamente verdade, mas confirmação estética de sua própria superioridade moral.

 

É assim que os superiores encenam sua superioridade.

 

Não precisam dizer abertamente que desprezam o homem comum. Basta mostrar uma impaciência educada diante de sua linguagem. Não precisam confessar que sentem desconforto diante da fé popular, do patriotismo espontâneo, da moralidade doméstica ou do apego a limites antigos. Basta tratá-los como resquícios de um mundo que ainda não foi suficientemente corrigido. Não precisam declarar guerra à família, à tradição, ao senso comum ou à ordem moral básica. Basta observá-los com aquele ar de quem enxerga ali algo estreito, provinciano, insuficientemente sofisticado para os padrões da consciência moderna.

 

O teatro funciona porque muita gente ainda confunde refinamento de forma com elevação de caráter.

 

Mas forma não é fundo.

Elegância não é honestidade.

Vocabulário limpo não é prova de humanidade.

E o aplauso dos semelhantes nunca foi sinônimo de grandeza moral.

 

Ao contrário: muitas vezes, o teatro dos superiores serve justamente para esconder uma pobreza de vínculo com a realidade. O sujeito domina bem a gramática da indignação aprovada, sabe exatamente quais causas rendem prestígio, quais grupos merecem benevolência automática e quais pessoas podem ser tratadas com dureza sem custo reputacional. Sabe como parecer sensível sem precisar suportar o peso concreto da vida que comenta. Sabe como falar em nome do povo sem ter de partilhar o desconforto do povo. Sabe, sobretudo, como ocupar o lugar de consciência pública sem ter de prestar contas ao chão real de onde nascem as dores que transforma em discurso.

 

É por isso que há tanta encenação e tão pouca reverência pela vida concreta.

 

O pai de família que sustenta a casa, a mãe que transforma cansaço em cuidado, o trabalhador que acorda cedo, o pequeno comerciante que insiste, o religioso que ainda crê, o patriota que não sente vergonha da própria terra — todos esses raramente recebem o mesmo brilho simbólico que se concede aos atores do prestígio. Não porque lhes falte humanidade, mas porque lhes sobra realidade. E realidade demais costuma atrapalhar a coreografia moral dos que vivem de representar sensibilidade.

 

O homem comum é uma presença incômoda nesse teatro porque ele não cabe bem no roteiro. Sua existência lembra que há virtudes que não passam pelo palco. Lembra que há dignidade sem curadoria. Lembra que há decência sem performance. Lembra que o país continua sendo carregado por gente que não domina a linguagem da respeitabilidade automática, mas ainda sabe distinguir dever de capricho, liberdade de dissolução, autoridade de abandono, pertencimento de caricatura.

 

Isso fere a lógica dos superiores porque mostra um fato embaraçoso: boa parte daquilo que eles chamam de atraso talvez seja justamente o que ainda impede a vida de desmoronar de vez.

 

No fundo, o teatro dos superiores depende de uma fantasia muito conveniente: a de que existe um pequeno grupo encarregado de ensinar ao restante do país a forma correta de sentir, falar, amar, sofrer, pertencer e julgar. É uma fantasia antiga, embora frequentemente atualizada com roupas novas. Ela muda o repertório, troca os slogans, renova o tom, mas preserva a mesma estrutura íntima: a convicção de que alguns nasceram para interpretar o mundo e outros para serem interpretados; alguns para nomear a virtude e outros para recebê-la já pronta; alguns para representar o humano em sua forma alta e outros para servir de material imperfeito à pedagogia dos melhores.

 

Mas nenhuma sociedade saudável pode viver por muito tempo sob essa encenação sem começar a apodrecer por dentro.

 

Porque, quando o prestígio vale mais do que a verdade vivida, a vida pública perde sinceridade. Quando a superioridade performada substitui a escuta real, o povo deixa de se reconhecer nos intérpretes oficiais de sua própria experiência. Quando a aparência de virtude vale mais do que a relação honesta com o real, a confiança social se rompe, ainda que o palco continue iluminado por algum tempo.

 

E palco iluminado não é o mesmo que país de pé.

 

O problema nunca foi a existência de gente culta, preparada ou verbalmente sofisticada. O problema começa quando sofisticação vira salvo-conduto moral, quando cultura vira blindagem simbólica e quando o sujeito já não precisa ser verdadeiro, apenas convincente para os seus. Nesse ponto, a superioridade deixa de ser qualidade e vira teatro. E teatro demais, quando se apresenta como consciência pública, acaba produzindo uma sociedade em que muitos atuam, poucos escutam e quase ninguém se ajoelha diante da realidade.

 

No fim, o teatro dos superiores sempre revela a mesma fragilidade: ele depende mais do aplauso do que da verdade.

 

E toda superioridade que precisa tanto de palco para parecer superior talvez já tenha perdido, faz tempo, a autoridade que imagina possuir.

 

 

Graciliano Tolentino
Enviado por Graciliano Tolentino em 25/03/2026
Alterado em 25/03/2026
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