Graciliano Tolentino
Entre a poesia e a realidade: uma leitura do Brasil
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A VERGONHA QUE TENTARAM NOS ENSINAR

 

                 Poucas violências são tão profundas quanto ensinar um povo a sentir vergonha de si mesmo. Não a vergonha moral que nasce do erro real, da injustiça cometida, da falta de caráter ou da covardia diante do dever. Essa vergonha tem função humana, porque ainda reconhece a existência do certo e do errado. A vergonha de que falo é outra. É a vergonha culturalmente fabricada. A vergonha induzida. A vergonha pedagógica. A vergonha que não corrige o vício, mas enfraquece a identidade.

 

Foi essa vergonha que, durante muito tempo, tentaram ensinar ao brasileiro comum.

 

Ensinaram que sua fé precisava entrar na sala com a cabeça baixa. Ensinaram que seu amor à pátria era emocional demais, simplório demais, suspeito demais. Ensinaram que seu apego à família precisava ser tratado com cautela, quase como quem manuseia um objeto moralmente embaraçoso. Ensinaram que sua linguagem direta era defeito, que seu senso comum era atraso, que sua prudência diante de certas modas ideológicas era sinal de despreparo. Em resumo: ensinaram a muita gente que aquilo que a sustentava por dentro deveria ser visto, dali em diante, com certo constrangimento.

 

Nenhum projeto de poder simbólico despreza a utilidade da vergonha.

 

Porque um povo que tem vergonha de seus próprios vínculos fica mais fácil de conduzir. Um homem que aprende a desconfiar do que ama torna-se mais vulnerável a qualquer instância que lhe prometa um novo vocabulário de dignidade. Uma sociedade que começa a rir de seus próprios símbolos com a boca de seus adversários já iniciou, muitas vezes sem perceber, um processo de afastamento de si mesma. E esse afastamento não acontece apenas na política. Ele acontece na escola, na cultura, no entretenimento, no ambiente profissional, na imprensa, na fala pública, na piada, no silêncio, no olhar lateral de superioridade com que certas camadas da elite observam tudo o que ainda cheira a Brasil profundo.

 

O mecanismo quase nunca foi bruto. Quase nunca disse explicitamente: “tenha vergonha da sua pátria, da sua fé, da sua família, do seu povo.” Teria sido vulgar demais. A operação sempre preferiu a sofisticação. Veio em forma de refinamento. Veio em forma de ironia. Veio em forma de inteligência bem vestida. Veio em forma de superioridade cultural. A vergonha foi sendo instalada não como mandamento, mas como clima. O sujeito aprendia, pouco a pouco, quais palavras o tornavam ridículo, quais símbolos o faziam parecer menor, quais convicções o colocavam automaticamente sob suspeita, quais formas de pertencimento precisavam ser amolecidas para que ele pudesse continuar sendo aceito nos ambientes certos.

 

Foi assim que muitos brasileiros começaram a amar o próprio país em tom de defesa. Como quem já antecipa a caricatura alheia. Como quem diz: “eu sei que isso pode soar exagerado, mas...” Foi assim que muita gente passou a esconder a própria fé para não parecer menos sofisticada. Foi assim que a família, em vez de honra cotidiana, começou a ser tratada em certos círculos como palavra carregada demais. Foi assim que o homem comum se viu empurrado para a posição humilhante de alguém que precisa justificar, o tempo todo, por que continua ligado àquilo que o formou.

 

Essa vergonha ensinada talvez tenha sido uma das formas mais eficazes de desorganizar a alma pública brasileira.

 

Porque um povo não precisa ser derrotado apenas por armas, leis ou censura explícita. Ele também pode ser enfraquecido quando perde a espontaneidade do próprio pertencimento. Quando seus símbolos deixam de aquecer e passam a constranger. Quando sua memória deixa de orientar e passa a envergonhar. Quando sua linguagem afetiva é tratada como material bruto que precisa ser civilizado por alguma elite autoproclamada mais madura. Nesse ponto, a dominação já não é apenas política. É íntima. Ela atinge o lugar em que o sujeito aprende a dizer “nós” sem pedir desculpas.

 

Mas toda pedagogia da humilhação encontra um limite.

 

Chega um momento em que o homem comum começa a perceber que o problema não estava naquilo que amava, e sim no olhar que tentava degradar esse amor. Chega um momento em que a vergonha muda de lado. Já não envergonha mais amar o país; passa a envergonhar a arrogância de quem despreza o país real. Já não envergonha mais ter fé; passa a envergonhar o vazio elegante de quem só sabe rir do sagrado. Já não envergonha mais defender a família; passa a envergonhar a frivolidade moral de quem trata vínculo como prisão e dissolução como virtude. Já não envergonha mais ser povo; passa a envergonhar a elite que fala em inclusão enquanto sente nojo da vida comum.

 

Esse deslocamento é profundo. Porque marca o instante em que um povo começa a reaprender sua própria dignidade.

 

No fundo, a vergonha que tentaram nos ensinar nunca foi sobre civilidade, progresso ou maturidade. Foi sobre domesticação. Foi sobre ensinar o Brasil a se afastar do que ainda lhe dava chão. Foi sobre tornar suspeito tudo aquilo que ainda escapava ao controle simbólico dos intérpretes oficiais do bem, do gosto e da inteligência. Foi sobre produzir um país que só pudesse amar a si mesmo se fosse antes filtrado, neutralizado, corrigido e aprovado.

 

Mas pertencimento de verdade não nasce de aprovação externa.

 

Ele nasce do reconhecimento de que há coisas que merecem ser amadas antes mesmo de serem celebradas pelos salões do prestígio. A língua. A memória. A fé. A família. A terra. O povo. Os símbolos que organizam a continuidade. Os vínculos que sobrevivem ao deboche. As permanências que continuam respirando mesmo quando o tempo inteiro parece conspirar contra elas.

 

Nenhuma nação permanece inteira por muito tempo se aprende a se olhar com desprezo. E nenhum povo se reencontra de fato enquanto continuar repetindo, com a voz do adversário, a vergonha que lhe ensinaram a sentir.

 

A dignidade começa a voltar quando a vergonha deixa de obedecer ao script.

 

E talvez uma das tarefas mais decisivas do nosso tempo seja justamente esta: desaprender, com coragem, a humilhação que tentaram nos ensinar.

 

 

Graciliano Tolentino
Enviado por Graciliano Tolentino em 25/03/2026
Alterado em 25/03/2026
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