Há uma estranha fragilidade em certos ambientes do nosso tempo. Eles suportam quase tudo, menos a realidade quando ela chega sem pedir licença e sem vir traduzida no vocabulário que consideram aceitável. Suportam a ficção conveniente, a pose equilibrada, a indignação roteirizada, a análise que já nasce domesticada. Mas a realidade bruta — aquela que entra pela porta da vida comum, pela experiência direta, pelo olhar de quem trabalha, sofre, cria filhos, reza, paga conta e ainda distingue o que vê do que mandam que ele veja — essa causa desconforto.
E quando o real começa a ofender, o problema já não está no real.
Durante muito tempo, parte considerável da vida pública acostumou-se a tratar a experiência concreta do homem comum como material bruto a ser corrigido por alguma instância superior de interpretação. O sujeito podia viver determinada coisa, sentir determinada pressão, perceber determinada mudança no clima moral, notar determinado padrão de desprezo, censura ou humilhação. Ainda assim, sua leitura só ganhava legitimidade se fosse previamente batizada pela linguagem certa, homologada pelos intérpretes certos, encaixada na moldura certa.
Como se ver não bastasse. Como se viver não bastasse. Como se a verdade, para existir, precisasse antes ser autorizada.
Esse é um dos mecanismos mais corrosivos da vida pública contemporânea: a tentativa de separar o cidadão comum da autoridade sobre sua própria experiência. Quando isso acontece, não se governa apenas a opinião. Governa-se o próprio acesso ao real. O homem comum passa a desconfiar do que percebe. Passa a medir a própria lucidez pela aprovação de ambientes que o desprezam. Passa a imaginar que talvez sua sensação de sufocamento seja exagero, que sua percepção de manipulação seja paranoia, que seu incômodo com certas imposições simbólicas seja atraso, que sua resistência à vergonha ensinada seja apenas incapacidade de se adaptar.
É assim que uma sociedade começa a adoecer por dentro.
Não porque a mentira se imponha sempre pela força bruta, mas porque a verdade vai sendo cercada por um clima de constrangimento. O sujeito percebe, mas hesita. Nomeia, mas recua. Intui, mas pede desculpas. E pouco a pouco se instala um ambiente em que o real continua presente, porém sua leitura espontânea vai sendo tratada como moralmente suspeita. Quem ainda enxerga sem mediação passa a parecer grosseiro. Quem se recusa a mentir sobre o que vê começa a soar inconveniente. Quem insiste em chamar as coisas pelo nome certo adquire, de repente, o ar de um problema.
Toda época que desconfia demais da percepção comum está flertando com algum tipo de tirania simbólica.
Porque a vida real não cabe inteira nas palavras limpas dos que vivem de administrá-la à distância. A família real não cabe na teoria que a tolera apenas como ornamento. A fé real não cabe no sorriso condescendente de quem a aceita apenas como folclore. O patriotismo real não cabe na caricatura de quem só suporta amor ao país quando ele vem neutralizado, quase envergonhado. A liberdade real não cabe no discurso de quem a celebra em abstrato, mas se alarma quando ela produz vozes não autorizadas.
É por isso que o real ofende.
Ele ofende porque desorganiza o teatro.
Ofende porque interrompe a encenação.
Ofende porque devolve ao povo a autoridade de perceber sem tutela.
Ofende porque mostra que há vida fora do circuito de consagração moral.
Ofende, sobretudo, porque lembra aos sacerdotes do prestígio que a realidade não depende deles para continuar existindo.
O brasileiro comum conhece essa sensação mais do que muitos imaginam. Ele a conhece quando liga a televisão e não reconhece o país que viveu o dia inteiro. Conhece quando percebe que certas dores são imediatamente legitimadas e outras continuam invisíveis. Conhece quando nota que o problema de muitos discursos não é o excesso de grosseria no mundo, mas a permanência de pessoas que ainda não aceitaram trocar sua percepção por uma legenda pronta. Conhece quando sente, no próprio corpo, que há algo profundamente errado em um ambiente no qual a experiência vivida precisa sempre se ajoelhar diante da interpretação prestigiosa.
No fundo, o conflito é este: de um lado, a realidade concreta, imperfeita, contraditória, mas vivida. Do outro, a vontade de filtrar essa realidade até que ela perca tudo o que incomoda. De um lado, a verdade que nasce da vida. Do outro, a tentativa de disciplinar a vida para que ela caiba na verdade oficial. De um lado, o país real. Do outro, o país suportável para os que só conseguem amar o que conseguem controlar.
Mas a realidade tem uma crueldade silenciosa com toda forma de prestígio artificial: ela volta. Volta pelo cansaço das famílias. Volta pelo medo que as pessoas sentem e não conseguem mais fingir que não sentem. Volta pelo desconforto de quem percebeu a manipulação tarde demais para continuar obedecendo em paz. Volta pela recusa de um povo em continuar chamando de refinamento aquilo que apenas o humilha.
O real pode até ser abafado por um tempo. Pode ser caricaturado, policiado, empurrado para as margens do debate respeitável. Pode ser tratado como exagero, grosseria ou atraso. Mas não desaparece. Porque a vida concreta continua cobrando seu preço, exigindo seu nome e desmentindo, dia após dia, as versões excessivamente limpas de um mundo que nunca existiu.
Quando o real ofende, o que está sendo ferido não é a civilidade.
É a fantasia de controle.