Durante muito tempo, o Brasil viveu cercado por certas normalidades que, de tão repetidas, pareciam naturais. Parecia normal que o homem comum fosse retratado como atraso. Parecia normal que a fé popular fosse tolerada com condescendência. Parecia normal que amar o próprio país exigisse um tom de desculpa. Parecia normal que certas elites culturais falassem em nome do povo enquanto mantinham com o povo real uma distância quase higiênica. Parecia normal, até que deixou de parecer.
E quando uma normalidade deixa de parecer normal, alguma coisa profunda começa a se mover na história.
Esse talvez seja um dos traços mais decisivos do nosso tempo político e cultural: não apenas a disputa aberta por poder, mas o colapso silencioso de certas unanimidades morais que por décadas se apresentaram como óbvias. O que antes vinha embalado como sensatez passou a revelar um fundo de arrogância. O que antes soava como civilidade começou a mostrar traços de constrangimento. O que antes era vendido como consciência superior foi, aos poucos, deixando escapar o velho desprezo pelo brasileiro concreto — pelo seu sotaque, pela sua religiosidade, pelo seu apego à família, pelo seu patriotismo, pela sua recusa em aceitar que viver como vive fosse prova de inferioridade moral.
Nada disso surgiu de um dia para o outro. Por muito tempo, houve uma pedagogia difusa da humilhação. Ela não vinha sempre em forma de ataque direto. Às vezes vinha em tom professoral. Às vezes em forma de piada. Às vezes em linguagem sofisticada, como se apenas os refinados tivessem acesso à chave legítima da realidade. O resultado, porém, era quase sempre o mesmo: ensinar ao homem comum que sua maneira de existir precisava ser corrigida. Ensinar ao conservador que sua prudência era atraso. Ensinar ao religioso que sua fé era embaraço. Ensinar ao patriota que seu amor ao país era suspeito. Ensinar ao povo que a versão nobre de si mesmo estava sempre em outro lugar, nunca nele.
O mais perverso dessas épocas não é apenas a mentira. É o conforto com que a mentira se instala.
Quando uma sociedade se acostuma a ouvir sempre a mesma interpretação do bem, do progresso, da democracia, da sensibilidade e da justiça, ela corre o risco de parar de perceber que por trás dessa linguagem também existem interesses, hierarquias, exclusões e mecanismos de poder. O problema nunca foi haver disputa. O problema foi uma parte dessa disputa conseguir se apresentar durante tanto tempo como se não fosse disputa, mas apenas a forma madura, inteligente e moralmente aceitável de ver o mundo.
É aí que muita coisa que parecia normal revela o que realmente era.
Não era apenas refinamento. Muitas vezes era monopólio simbólico.
Não era apenas responsabilidade. Muitas vezes era tutela.
Não era apenas sensibilidade. Muitas vezes era superioridade seletiva.
Não era apenas apreço pela democracia. Muitas vezes era medo da voz errada ocupando espaço demais.
Não era apenas crítica ao conservadorismo. Muitas vezes era desprezo ao povo que não se deixava dissolver.
A releitura do passado recente passa por isso. Por perceber que certas estruturas de prestígio não estavam apenas oferecendo interpretação, mas exigindo submissão emocional. Por perceber que a caricatura da direita, do religioso, do patriota, do homem comum e do interior do país não era acidente retórico, mas peça importante de uma ordem simbólica mais ampla. Por perceber que a vergonha ensinada não era um detalhe, mas um método. Um país que aprende a rir de seus próprios vínculos com a linguagem do adversário começa a se afastar de si mesmo sem perceber.
Talvez por isso a ruptura de certas unanimidades tenha provocado tamanho incômodo. Porque não foi apenas uma mudança eleitoral ou de superfície. Foi a quebra de um encantamento. Foi o momento em que milhões de pessoas começaram a dizer, ainda que confusamente: “espera, talvez o que me ensinaram a tratar como atraso não fosse atraso; talvez o que me venderam como lucidez carregasse, no fundo, um profundo desprezo por tudo o que me constitui.”
Esse momento é sempre perigoso e fértil ao mesmo tempo. Perigoso, porque a quebra de normalidades expõe ressentimentos antigos, agressividades escondidas e disputas que estavam abafadas. Fértil, porque devolve ao povo a possibilidade de olhar de novo para a própria experiência sem aceitar automaticamente a moldura dos intérpretes oficiais. E quando isso acontece, velhas palavras mudam de peso. Pátria volta a ter calor. Família volta a ter dignidade. Fé volta a soar como fonte de ordem e não como ruína. Liberdade volta a ser percebida não como ornamento de discurso, mas como necessidade concreta de sobrevivência moral.
No fundo, é isso que a releitura histórica do nosso tempo exige: coragem para admitir que muita coisa que nos apresentaram como maturidade era apenas uma forma educada de nos afastar de nós mesmos.
O que parecia normal e não era não precisa ser lembrado com histeria, mas também não merece ser tratado com inocência. Porque nenhuma dominação simbólica dura tanto tempo sem aprender antes a se vestir de equilíbrio, de bom senso e de superioridade moral. E nenhuma sociedade reencontra sua própria coluna sem passar pelo momento em que olha para trás e percebe, com uma mistura de espanto e lucidez, que aceitou como natural aquilo que já era, há muito tempo, uma deformação.
Há épocas em que um povo perde mais do que poder. Perde linguagem para nomear o que está vivendo. E há épocas em que essa linguagem começa a voltar.
Quando isso acontece, o passado deixa de parecer apenas passado. Ele passa a ser julgamento. E muita coisa que antes era tratada como normal finalmente revela o nome que sempre tentou esconder.