Escrivinhando... - Graciliano Tolentino
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MANIFESTO das VILAS UNIDAS DO JARDIM ARCO ÍRIS

MANIFESTO das VILAS UNIDAS DO JARDIM ARCO ÍRIS


Durante todos os anos de minha vida eu vi políticos chegando nestes lugares em tempos de eleição para comprar nossos votos isolados.

Até mesmo professoras na Escola nos incentivavam a pensar dessa forma. Se vender para o sistema para se conseguir favores em troca.

O sentimento de egoísmo tomou o coração de muitos de nós durante muito tempo.

Durante muito tempo se imaginou que pegar uma vantagem sozinho e sustentar sua família era suficiente.

Ter a oportunidade de colocar um filho para estudar e etc.

- Deixa de querer ser Dom Quixote! Dizia meu pai comigo.

Mas eu sempre pensei, você está errado. Eu vou te provar que eu estou certo e você está errado!

Eu acreditei em Rousseau quando ele disse que o ser humano nasce bom e a sociedade o corrompe.

É mentira que as pessoas são egoístas. E esses últimos tempos vêm demonstrando tudo isso!

Acho que os tempos de fartura fizeram com que ficássemos cada vez mais distantes uns dos outros.

Antes sempre tínhamos dinheiro pra viajar e para ir para lugares distantes que julgávamos mais bonitos.

E de repente só tínhamos a nossa vila.

E aquela vizinha que a gente nem fala há tempos, acaba precisando de ajuda, ou você acaba precisando da ajuda dessa vizinha. E vocês se socorrem.

Começamos a procurar em nosso armário, pegar um alimento para ajudar um conhecido.

Voltamos a nos reunir para tocar violão. Voltamos a nos ajudar.

Olhem para o nosso bairro. Olhem só o que conseguimos fazer!

Todos juntos nessa caminhada, dia pós dia, há anos!

Olhem para o resto do município, quem é que faz tanto pela comunidade, quanto os moradores do jardim arco íris?

O Jardim Arco Íris está voltando a ser aquele bairro que eu cresci, e que brincava com meus amigos na rua até anoitecer! Que jogávamos bola na chuva naquela quadra que era descoberta. Que tinha um rio que eu jogava pedra nos peixinhos com o meu pai.

Durante muito tempo eu nem posso entender o que aquele bairro lindo tinha se tornado.

E graças ao sonho que se tornou coletivo, e que cada pessoa dessa comunidade tem participação. Foi guerreira, doando por vezes um refrigerante, ou a mão de obra de um dia inteiro.

Da parte de outros, houve a mão de obra de meses, ou de anos.

A única praça conservada e em constante manutenção da parte periférica do município de Cotia.

E não é o prefeito ou o vereador que está fazendo, que está limpando, que está zelando, que está impedindo de quebrar.

Somos todos nós! Os moradores do bairro! Voluntários te todas as formas, de pessoas que fazem limpeza nas praças, que não deixam uma criança quebrar algo. Que não joga lixo na rua, que não quebra nosso ponto de ônibus que É DE VIDRO!

Parece bobeira, mas não é! Toda a minha vida eu cresci com as pessoas quebrando as coisas ao redor. Pichando, roubando. Quantas vezes assaltaram o Ken Kity? Até quando eu estudei lá tinham sido 59 (cinquenta e nove) vezes.

Alguns amigos de infância morreram antes de eu entender que a morte existia. E de repente eu vi amigos com a cabeça estourada pela mão da polícia ou de um traficante.

Quantos amigos a gente perdeu para as drogas. Quantas vezes a gente não fez a nossa mãe chorar...

Mas a gente superou isso! E superamos juntos!

Nós temos meninos da vila indo para o futebol profissional, temos mulheres que estão se curando da depressão, temos garotos com opção de lazer. Brinquedos para nossas crianças brincarem, e até um altar de Nossa Senhora de Aparecida no centro da vila!

Igrejas evangélicas dividem espaço com terreiros de umbanda, e voltamos a viver em paz.

Não foi mais possível termos nosso riozinho, mas agora temos uma praça arborizada com gramado!

A gente ouvia muito essa música quando adolescente:

“Sempre quis um lugar
Gramado e limpo, assim verde como o mar
Cercas brancas, uma seringueira com balança
Disbicando pipa cercado de criança

How... how brown

Acorda sangue bom
Aqui é Capão Redondo "tru"
Não Pokemon
Zona Sul é invés, é estresse concentrado
Um coração ferido por metro quadrado”

Mas a nossa fé contrariou a regra e nós conseguimos!
O bairro não tem um vereador que seja “dono” dele, nem tem mais aquela conversa que de o Jardim Arco Íris é território de ciclano!

Acabou! O jardim Arco Íris se mostrou forte, nós nos superamos como comunidade independente de interesses partidários!

A comunidade se estruturou, se organizou, e está crescendo e se articulando, como sempre foi no passado, e que nunca deveria ter deixado de ser.

De criança eu já via exemplos de pessoas que contribuíam. E os mais velhos do bairro sempre procuravam um jeito de se unirem.

Quem não se lembra das festas que foram feitas pra arrecadar dinheiro para ajudar pessoas doentes do bairro, e outras que estavam beirando a morte. Mas não morreu, e os mais antigos sabem de quem estou falando.

Nós passamos juntos por tantas coisas. Até por brigas coletivas na escola, em que todos os garotos do bairro se protegiam para nenhum de nós apanhar dos garotos de outros bairros.

Um tomava as dores do outro, poderia até se odiar, mas ninguém de fora colocava a mão em um dos nossos! Era coisa de criança, talvez, mas a gente se protegia, porque a gente amava o nosso lugar.

Nos protegíamos como irmãos. Nunca deixamos um dos nossos dormir na rua, poderia se conhecer pouco, só de falar de vez em quando, mas ficar na rua no meio da noite, jamais.

Nós sempre fomos um dos bairros mais unidos do município, e por um bom tempo estivemos divididos.

Mas nós nos superamos e vencemos esta etapa, e o que mais vejo dia pós dia, é um sentimento coletivo florescendo, e cada vez mais eu acredito que possamos ser sim, o bairro do futuro.

Organizado, limpo, decorado, bonito, ocupado com coisas boas.
Eu curto muito a música Geração Coca Cola do Renato Russo, especialmente em uma parte que fala:

“Depois de vinte anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser
Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então, vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis
Somos os filhos da revolução”


E somos mesmo.

Temos no bairro, de arquitetos a pedreiros e engenheiros, temos advogados, bacharéis em direito, professores, funcionários públicos, policiais, empresários, comerciantes, autônomos, costureiros, cabeleireiros, técnicos de informática, marceneiros, cozinheiros, agricultores, O QUE NOS FALTA?

VOLTARMOS A SER O ARCO-ÍRIS QUE SEMPRE FOMOS!

Tinha um Grafiti na entrada do bairro há alguns anos que dizia:

“SE TODOS DERMOS AS MÃOS, QUEM SACARÁ AS ARMAS”

Vocês perceberam a profundidade que essa frase tem?

Quer dizer que JUNTOS SOMOS FORTES!

E precisamos pensar como um só, nos fortalecermos e vencermos esta luta, que dia pós dia conseguiremos chegar cada vez mais longe


Graciliano Tolentino
Graciliano Tolentino
Enviado por Graciliano Tolentino em 13/04/2020
Alterado em 14/04/2020
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