Escrivinhando... - Graciliano Tolentino
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Meu Diário
26/11/2019 20h15
MEU RETORNO PRO FÓRUM DE BERTIOGA

Dia 26-11-2019



Querido Diário,



Ontem eu voltei a trabalhar no Fórum de Bertioga depois de longos meses de afastamento por motivos de saúde. Adoecer é difícil, ainda mais quando o adoecimento é psicológico e ainda se tem muito a compreensão na sociedade que isso é algo como frescura ou qualquer coisa do tipo.



Cheguei no fórum entre abraços de colegas e olhares desconfiados de alguns que não me conheciam. Os abraços foram maioria, é fato. O que me deixou bastante confortável por diversos momentos.



No dia anterior tinha enfrentado uma viagem de volta para Bertioga bastante cheia de intempéries que me tomaram o dia inteiro. Pra falar a verdade, a própria semana foi bastante cheia. Diversos compromissos, diversas coisas pra fazer, a última perícia médica que aconteceu no dia dezenove de novembro.



É complicado falar sobre adoecimento. É complicado colocar pra fora todas essas coisas que sinto ainda mais de uma forma tão aberta quanto decidi fazer agora. Nunca escrevi diário, por mais que tenha tentado por diversas vezes, ainda mais escrever diário sabendo que outras pessoas leriam.



Aprendi a importância de escrever diário com minha filha, Dhandara, que me aperreou por quase um ano até eu tomar vergonha na cara e comprar o bendito que ela tanto queria e eu sempre encontrava uma desculpa dentro de mim mesmo pra não fazer um esforço e ir procurar.



Sério, eu só chegava em uma ou outra papelaria, perguntava se tinha diário, me diziam que “não” e eu nem procurava saber em outro lugar, até que eu resolvi bater a vinte e cinco de março quase toda em busca desse bendito diário e acabei encontrando em uma loja de produtos chineses.



Aí comprei o que precisava junto com umas sacolinhas decoradas de acordo com as cores que elas têm por delas, a Zaphyrah gosta de lilás e a Dhandara gosta de rosa. Interessante que até as carinhas que vieram nas estampas tinha a ver com a personalidade delas. A Zaphyrah mais atrevida e a Dhandara mais dengosa.



Inclusive, eu inventei o nome de super heróis pra elas: A Dhandara é a SUPER DENGO e a Zaphyrah é a SUPER-PUM. Ave Maria... Quando as duas se juntam...



E eu perguntei à Dhandara:



- Filha, qual é a graça de escrever diário?



Ela me respondeu com sua inocência de criança:



- A gente conta pra ele tudo aquilo que a gente quer contar pra alguém e ninguém quer ouvir.



Taí... Gostei! Então decidi escrever o meu. A partir de hoje.



Ao chegar no Fórum, logo pela manhã na segunda-feira do meu retorno, fui atendido pela minha nova chefe a Rose. O que eu gostei dela é que ela é bastante sincera, sincera a ponto de ser chocante. Mas eu prefiro pessoas assim, melhor do que gente que fica sorrindo pra você e nas costas fica te detonando.



Aí já viu... Eu tinha tido problema com uma chefe evangélica que é a Oficial do Cartório do Segundo Ofício Cível de Bertioga. Eita mulher difícil! Simplesmente não gosta de ver ninguém feliz e inferniza todo o mundo que não se submete a ser capacho dela. Logo nos primeiros dias que eu cheguei ela veio com a seguinte conversa:



- Você para o Tribunal de Justiça é apenas um número!



Número? Eu pensei. Número não... Número era minha bisavó, que foi escrava, EU NÃO! Número na cabeça dela, conheci diversas pessoas no Tribunal de Justiça que respeitam todos ao seu redor, essa pelo visto, é uma das exceções.



Minha liberdade já incomodou muita gente, inclusive meu antigo chefe, o Sérgio, aquele da crônica: “E-mail para o Chefe”. O sujeito responde a diversos processos por assédio moral por parte de diversos funcionários e ainda teve a pachorra de falar mal de mim no novo ambiente de trabalho. Normal. Não esperava diferente.



Meu supervisor antigo, que era chefe dele, o Leitão, que por ventura, foi meu último chefe deu boas referências de mim, inclusive me avaliou como ÓTIMO pelo meu trabalho, mas, coisas ruins sempre parecem ter mais peso do que coisas boas.



Pelo o menos a Rose me pareceu justa, disse que iria me conferir o benefício da dúvida e que eu demonstraria minha capacidade de trabalho no meu dia a dia, porque o que ela tinha visto na minha atuação profissional nos quarenta dias de Fórum que eu trabalhei esse ano, foi péssima.



Claro que foi! EU TAVA TERRIVELMENTE ADOENTADO E FAZENDO UM ESFORÇO TERRÍVEL PRA CONSEGUIR VOLTAR A TRABALHAR. Aí, quando eu tenho uma crise no cartório, pra começo de conversa, vem a chefe e diz que a crise era uma possessão demoníaca e que eu procurasse uma igreja evangélica, até me convidou pra dela.



Sou do Candomblé desde pequeno, e ela sabia disso, se isso não é racismo, eu não sei o que é. A turma pensa que racismo é só dizer com todas as letras que o fulano é preto e por isso está sendo desprezado. Inferiorizar a cultura do preto também é racismo, e perseguir ele por conta dessa cultura também!



Mas, tudo bem. Vim para o setor de protocolo. Estou amando o lugar! Os meus colegas são muito gentis, também passaram por problemas psiquiátricos terríveis, e acabaram construindo no ambiente de trabalho, o que me aparenta até agora, um ambiente de paz.



O Marcelo é um cara legal, surfista, na dele, humilde, a Elaine também é bem legal. Teve sérios problemas com a mesma mulher que me infernizou e hoje está desempenhando um ótimo trabalho neste novo setor, e se recuperando bem de seu adoecimento.



Estou me dando bem por aqui, estou mais tranquilo. Meu retorno está sendo bem agradável e eu estou feliz por ter voltado a trabalhar. Ninguém merece se sentir um inútil.



 



Graciliano Tolentino


Publicado por Graciliano Tolentino
em 26/11/2019 às 20h15
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