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SUBSERVIÊNCIA DO NEGRO COMO CONDIÇÃO GENÉTICA?

- Crônica do dia 13-11-2019 -

Certa feita numa aula de Antropologia Jurídica, uma professora formada na USP e Doutorada na mesma Universidade, que impossível não dizer que seja uma das melhores da América Latina, quando estava dando aula sobre Quilombos, racismo e escravidão no Brasil, quando questionada sobre a condição do negro no Brasil, proferiu a seguinte frase:

- O negro foi escravizado por ter COMO CONDIÇÃO GENÉTICA A SUBSERVIÊNCIA.

Disse isso e fechou conceito!

Ainda como argumento, utilizou o comparativo a diversas etnias indígenas do mesmo período colonial-escravista, afirmando que os indígenas sofreram genocídio porque não aceitaram serem escravizados e preferiram a morte à senzala.

Isso já foi motivo pra eu ficar estupefato. Porém, motivo maior da minha indignação, foi que o restante da sala de aula, salvo pequenas exceções, CONCORDOU COM A AFIRMAÇÃO!

Em uma sala quase que integralmente branca, composta por cerca de cinquenta alunos e apenas quatro negros. Éramos minoria. Sempre fomos minoria em uma sala de nível superior no Brasil, ainda mais, quando se trata de cursos elitizados como o de Direito.

Ela nem sequer concluiu o raciocínio, e eu, como de praxe, interferi na explanação.

- Justifique, professora! Qual base fundamenta esse pensamento?

Nenhuma base histórica, antropológica, psiquiátrica ou mesmo teórico-filosófica foi elencada, apenas compreensões de senso comum que são corriqueiras neste tipo de afirmação. A balbúrdia tomou conta. Os outros negros ficaram calados, apenas Marcelo, e eu decidimos falar.

O que ela havia justificado é que o negro sequer fugia das senzalas, e aceitava o cárcere passivamente. Eu questionei:

- Como assim os negros não fugiam, professora? E os quilombos, professora?

Ela simplesmente negou a existência de quilombos e disse que eram apenas aglomerados de negros que permaneceram nas fazendas pós abolição e o governo do PT pra ganhar dinheiro com isso, resolveu titulá-los como quilombos. Simples assim, ela desconstruiu toda a história de resistência do nosso povo.

Talvez, comum seria, se eu tivesse ouvido isso da boca de um branco com ascendência europeia caucasiana. Porém, A SUJEITA ERA JUDIA!

Começamos o debate... Ora, os Judeus foram escravizados e perseguidos desde que o mundo é mundo. Babilônia, Egito, Oriente Médio, Europa... ATÉ NO BRASIL DE GETÚLIO VARGAS! Ou a gente deve esquecer que Olga Benário foi enviada como presente de luxo para Adolf Hitler no contexto da Alemanha Nazista?

Muitos guetos onde eram “depositados” cruelmente os judeus na Alemanha, Polônia e outros lugares onde essa maldição se instalou eram vigiados por apenas um soldado alemão, e não houve muitos levantes, como o do Gueto de Varsóvia. Questionei-a se isso era critério para determinar uma possível condição genética.

Nada houve de respostas concretas. Apenas justificas de seu pensamento racista. Apenas isso. Nada mais. É cruel culpar a vítima pelas agressões sofridas, ainda mais quando se trata de uma barbárie nestas proporções.

Depois de meses acorrentado em um navio, sendo alimentado por restos de carne humana de jovens negras que eram esquartejadas depois de serem estupradas e esfoladas vivas com uma navalha, aglomerados com outros pretos de etnias diferentes, e por vezes rivais, que falavam outros idiomas, levado para uma terra estranha, onde tudo era diferente, e tratado de maneira que até mesmo os animais de carga, são proibidos de serem tratados, imagino que a não reação à ordens esdrúxulas e trabalhos forçados, não pode ser havido COMO MERA CONDIÇÃO GENÉTICA.

Ou então voltamos a nos valer das teorias ridículas de Goubineau e outros mais. Quem sabe Lombroso?

Talvez isso possa trazer uma reflexão bastante interessante: A APATIA NASCE DO DESEJO DE SENTIR-SE SUPERIOR AO OUTRO. E essa mesma APATIA abre as portas para que as mais diversas formas de crueldade humana possam se manifestar nas relações sociais.

Pensar o RACISMO é um trabalho complexo, acuidoso e diuturno. E você, qual a frase racista que mais marcou sua vida?

Graciliano Tolentino
13-11-2019
Graciliano Tolentino
Enviado por Graciliano Tolentino em 13/11/2019
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