Escrivinhando... - Graciliano Tolentino
Vez em quando eu sinto, em meus sonhos, o cheiro daquela terra gostosa...
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PLATÃO E CARLÃO

-Crônica do dia 04-04-2019-

Há milênios se discute a respeito da existência da alma. Em determinados pontos da história, houve diversos filósofos que pensaram sobre isso.

A galera gosta muito de falar em Descartes, a respeito da frase: “penso, logo existo!”. E aquela coisa toda a respeito do livro dele REFLEXÕES DA ALMA. Sim... É verdade...

Sério... De verdade? Para o momento, não interessa falar de Descartes!
Eu tava mesmo pensando em Platão...

Quando ele traz o pensamento a respeito da divisão de corpo e alma. E, que, precisávamos separar o corpo da alma para podermos viver uma espécie de plenitude dos sentidos.

Juro que passou, pela minha cabeça, um filme.

Eu na casa do meu ex-cunhado, Thiago, que me emprestou o primeiro violão, onde eu aprendi a fazer as primeiras notas e um método do Henrique Pinto, que mudou minha vida.


Enfim... Estávamos tocando violão (eu, observando pra aprender e aqui e acolá, fazendo “cagada”) e eles, Thiago e Wlliam estavam ensaiando uma música do “Ira!”: DIAS DE LUTA.

“Depois de muito tempo fui entender aquele homem,
eu queria ouvir bastante, mas, ele me disse pouco”.
Passei dez anos para entender o que seria essa separação entre corpo e alma.

O raciocínio e o sentimento, real e ilusório, fático ou onírico?

Difícil de se entender, porque é tão profundo que é trabalhoso encontrar o ponto onde “dá pé”, nesta discussão.

PLATÃO ficou difícil de entender, mas, certa feita, o filósofo CARLÃO, na primeira vez, eu, já depois de adulto, tive a oportunidade de conversarmos intimamente, a respeito de questões do passado e da nossa família, disse coisas interessantes.

Estávamos falando a respeito dos traumas que vivemos da nossa família.

Adoentada por esse sistema miserável que fez da nossa família, escrava, desde os tempos mais remotos, já, que não tivemos a oportunidade de construir nossa árvore genealógica como fazem as famílias de sangue nobre.

Na Igreja dos Mórmons aprendi uma forma de buscar os antepassados a partir dos livros de batismo da Igreja Católica. Eu ainda vou separar pelo o menos um ano inteiro pra fazer essa “força tarefa”.

Enfim. Os relatos das nossas mães e tios a respeito de um período de quarenta, cinqüenta anos atrás, são terríveis.

Coisas como o Governo Federal mandar as vacinas para as crianças do município, e os militares vacinarem seus filhos e os filhos dos políticos e dos amigos e jogar o restante fora! Disso pra mais.

A contração de todos os tipos de doença, a violência impregnada na cultura, assassinados, torturas, estupros, humilhações, fome, cenário de guerra.

Sim... Isso é Brasil... Década de sessenta, sertão de Alagoas.

Naturalmente, pessoas que viveram cenários de escravidão, seca, fome, morte e miséria absoluta, criadas com ódio, cresceriam com ódio e passariam isso para seus filhos!

Assim foi feito. As marcas ficam, não no corpo, somente, mas na alma, no sentimento e isso dói.

Pensei por muito tempo que a alma servia pra isso: REFLETIR O QUE A MENTE RACIOCINA.

E foi quando o CARLÃO me disse enquanto “brisávamos” em nossa discussão quase filosófica:

- Sabe, Graciliano, eu fico me lembrando, sempre, a respeito de tudo o que fizeram comigo. Pensando, por vezes, que eu realmente era aquele lixo que o pessoal “de casa” tanto repetia e gritava pra todo mundo ouvir.

Fiquei escutando atento. Aqui e acolá um gole de chá.

- Pensava que toda aquela humilhação e tristeza que eu passava era o que eu tinha que pagar pelos erros que cometi na vida. E isso me consumiu e me maltratou durante muito tempo!

Apenas ouvia.

- Até que chegou um dia que EU APRENDI A ME PERDOAR. Porque da forma que eles sempre me falavam, parecia que todos os erros, por menores que fossem, eram imperdoáveis, e eu só vivia errando, mas, quando acertava, ninguém nunca apontou. “Não fazia mais que a obrigação”.

- Hum... – Bem verdade, pensei!

- Aí, quando eu aprendi a me perdoar, aprendi a perdoar a eles também, afinal eu amo todos os meus irmãos, e meus parentes.

- E você não guarda rancor, Zulu?

Neste momento, ele parou, e olhou bem no fundo dos meus olhos e falou de uma forma que eu nunca o vi falar.

Pausado, atencioso, falando baixo e de forma serena:

- Eu guardo lembrança, Graciliano, porque eu preciso delas, preciso me recordar do passado pra não sofrer de novo como sofri antes, mas as lembranças ficam só na mente, na minha alma, eu carrego o amor que tenho por todos eles.

Graciliano Tolentino
Graciliano Tolentino
Enviado por Graciliano Tolentino em 04/04/2019
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