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Mil Quilômetros Abaixo do Inferno
Crônica do dia 22 – 07 – 2018

       - Onde eu estou?

       Meus olhos pesavam e eu mal sentia as extremidades do meu corpo... A respiração difícil... Parecia que eu tinha dormido por meses! Não sentia minha língua, nem meus lábios... Tudo formigava...

       - Onde eu estou?

       Não me lembrava de ter bebido tanto... Nem me lembrava como fui parar ali... A vista embaçada e turva... Meus olhos não conseguiam focar nada... Eu não conseguia pensar...

       - Onde eu estou? E por que ninguém me responde? - Será que eu morri?

       Vultos vestidos de branco caminhavam para todos os lados vagarosamente num lugar escuro e com cheiro de hospital...

       Eu ouvia gritos de pavor vindos de todas as direções, e gargalhadas altas... Passos fortes correndo em algum lugar... Gritos... Muitos gritos! Eu não conseguia entender o que diziam... Mas entendi que alguém estava sendo perseguido...

       - Onde eu estou? E por que ninguém me responde? Será que eu morri? Ou será mais um dos meus pesadelos...

       - Não sei... Não tenho certeza... Eu nunca tenho certeza afinal...

       Minha vista estava embaçada... Eu precisava esfregar os olhos... Mas eles pesavam muito e eu não conseguia mantê-los abertos. Silêncio... Abri os olhos...

       - Cadê a minha mão? Por que não sinto minha mão, eu tentei olhar para a minha mão... Não tenho certeza de que a vi! Cadê as minhas mãos? Eu não estou vendo-as!

       Eu senti um fio de baba gelada voltando para a minha boca quando eu respirei fundo e levantei a cabeça... E tomei um ar...

       Encostei a cabeça numa superfície dura atrás das minhas costas... Parecia uma parede de azulejos...

       - Onde... Onde eu estou? Onde?

       Senti alguns tapas no meu rosto e alguns chacoalhões nos meus ombros que desequilibravam minha cabeça sobre o meu pescoço adormecido.

       Abri os olhos novamente... Respirei fundo novamente...

       - Socorro... Socorro... Por favor... Me ajuda...

       Não aguentava o peso das minhas pálpebras, logo tudo ficou escuro de novo... Senti mais alguns tapas no rosto, e mais alguns chacoalhões...

       Abri os olhos... O ambiente era pura penumbra... Mas mesmo com a vista turva eu pude ver um rosto... De um homem careca, pele clara, mas não branca, um branco queimado de sol... Careca... Com a mesma roupa branca.

       Senti que segurava meus ombros, e pude perceber que ele articulava a boca, como quem me dissesse algo, mas eu não entendia!

       Eu ouvia com dificuldade as palavras, como se houvesse um delay... Um eco... Não sei bem explicar... Parecia uma voz saindo de um cano de esgoto! Não conseguia juntar uma palavra com a outra, na minha cabeça.

       Eu consegui focar em seus olhos... Eram de preocupação... Pena... Pena de mim? Por que? O que o fez apiedar-se de mim?

       - O que está acontecendo?

       -Hã? O que vc disse?
       Como assim, o que eu disse? Perguntei a ele o que está acontecendo! Será que eu tinha viajado para um outro país? Mas eu sou brasileiro! E não me lembro de ter tirado passaporte! Pode ser o Mercosul... Não preciso de passaporte... Mas com que dinheiro? Não me lembro de ter dinheiro... Esse raciocínio não procede!

       Mas eu tentei...

       - Que passa comp...?

       Brequei. Não posso chamá-lo de companheiro... É tempo de caça aos comunistas... Ele sequer fala português...

       Senti mais uns tapinhas no rosto e mais um chacoalhão nos ombros e agora uma voz bem de longe no meu ouvido:

       - Acorda companheiro!

       Opa! Ele falava português e era comunista! Abri os olhos... Agora pude ver seu rosto nitidamente, com seu olhar que possuía um misto de medo, e, preocupação, e, pena, e consegui ouvir sua voz falando comigo...

       -Você está bem?

       Respirei fundo... Senti novamente um fio de baba gelada entrar pelo canto da minha boca. Ainda não sentia meus braços. Passei a língua nos dentes para conferir minha dentição, como faço de praxe. Todos os meus dentes estão na boca, até os sisos. Menos mal!

       - Onde eu estou companheiro?

       - Você está no hospital, na ala psiquiátrica! Você não lembra?

       Ala psiquiátrica? Que demônios eu estava fazendo ali?

       -Vem levanta, eu vou te ajudar! É hora de tomar café! Depois do café você vai se sentir melhor eu prometo!

       - Quem é você? - Eu perguntei a ele. Agora eu conseguia ouvir o som da minha voz e compreendi porque ninguém entendia o que eu falava... Minha voz estava mais mole, do que quando eu tomei um litro inteiro de Jack Daniels no aniversário de um amigo meu na Bahia.

       - Cadê a minha mão companheiro? Eles arrancaram minha mão?

       - Quem? Os militares? Eles arrancaram minha mão?

       - Não companheiro! Sua mão está aqui! As duas aliás!

       Ele pegou no meu pulso e ergueu e mostrou as minhas duas mãos para mim, eu tentei mexer meus dedos... E o mais interessante é que eu conseguia movimentá-los, mesmo sem senti-los...

       - Vem vamos tomar café! Eles não vão deixar você comer aqui, entendeu? E se você não for agora, você só vai comer no almoço! Faz força! Vamos levantar! Ei! Me ajuda aqui! Vamos levantá-lo pra ele tomar café!

       Disse ele para um outro vulto vestido de branco, do outro lado do ambiente, que só começou a tomar forma quando chegou bem perto.

       - Cadê meus óculos? Eu não estou enxergando...

       Pegaram por debaixo dos meus braços e me levantaram. Eu não sentia meus pés, e nem tinha força para me levantar do chão. Eles foram caminhando comigo até eu começar a firmar meus passos.

       Estava com muita vontade de tomar um gole de café... Nunca senti tanta vontade de tomar café em toda a minha vida!

       Não enxerguei muito bem o percurso, mal apoiava os pés no chão... Não entendia nada... Cheguei na fila do café... E fiquei ali até chegar a minha vez.

       Quando estendi a mão para pegar o café, olhei para o rapaz que servia... Uma figura horripilante... Mas não tive medo... Estranhamente não tive medo... Era uma cara vermelha toda enrugada e cheia de verrugas... Com chifres pretos enormes e uma careca, dentes ponte agudos, amarelados, uma língua como de serpente! E um... Um jaleco de hospital..

       Mas seus olhos eram ternos... E se apiedavam de mim...

       Então eu lhe perguntei:

       - O senhor é o Diabo?

       A criatura fez uma cara de tristeza e pena, e falou pra mim com uma voz carinhosa e terna:

       - Se eu fosse, jamais faria nenhum de vocês passar por isso...


Graciliano Tolentino
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Graciliano Tolentino
Enviado por Graciliano Tolentino em 22/07/2018


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Imagem de cabeçalho: Sergiu Bacioiu/flickr